O desenvolvimento, continuidade e, sobretudo, evolução de uma pesquisa científica só é possível com a soma de alguns ingredientes básicos como paciência, dedicação e persistência.

No entanto, mais do que isso, a troca de ideias entre pesquisadores tem papel central para que tal tarefa seja devidamente cumprida.

UFPI-2Com essa filosofia em mente, pesquisadores brasileiros que fazem parte da Rede de Nanobiotecnologia da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) reuniram-se no mês passado (junho), em Parnaíba - cidade localizada no litoral do Piauí, onde está sediada uma unidade de estudos avançados da Universidade Federal do Piauí (UFPI) -, para discutir os avanços dos estudos e pesquisas em nanobiotecnologia realizados pela Rede.

No encontro, algo muito positivo foi notado. "Percebemos que a rede está totalmente integrada e que várias pessoas estão trabalhando em colaboração", contou o docente do Laboratório de Nanomedicina e Nanotoxicologia (LNN) do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), Valtencir Zucolotto, que organizou o encontro da Rede, coordenada pela, também docente do IFSC, Yvonne Mascarenhas.

Ele afirma que houve avanços na área de produção de materiais para construção de sensores para diagnóstico, bem como a produção de novas moléculas para tratamento de doenças, como o câncer. "Notamos que tem havido diversos estudos experimentais e teóricos, propondo nanomateriais aplicados ao combate do câncer", conta.

No caso do Piauí, o docente da UFPI, José Roberto de Souza Almeida Leite, que coordena o Núcleo de Pesquisas em Biodiversidade e Biotecnologia (Biotec), emite a mesma opinião de Zucolotto. Entusiasmado com o entrosamento na rede, ele declara: "A Rede está funcionando como um grande laboratório associado, maximizando e tornando mais eficiente os gastos públicos, a formação de recursos humanos e a troca de experiências entre grupos fora do eixo do sudeste".

No que se refere à nanotoxicologia, ou seja, aos estudos que analisam implicações dos nanomateriais ao meio ambiente e à saúde, mais avanços foram evidenciados durante o encontro. "No Brasil e no mundo todo, essa área ainda se encontra em uma fase na qual ainda aguardamos resultados e ainda falta um tempo para que consigamos estabelecer os níveis de toxicidade de alguns materiais, para poder criar leis e regulamentos de uso, manipulação, descarte etc.", explica Zucolotto.

José Roberto diz que muitas perguntas precisam ainda ser respondidas, no que se refere à tecnologia nano. "Não sabemos muito sobre a estabilidade, viabilidade econômica e toxicidade destes novos materiais em tecidos animais. Além disso, marcos regulatórios menos burocráticos na ANVISA e mais específicos para nanotecnologia, precisam ser formulados", afirma.

Mais passos em direção à aplicação

No quesito inovação, o registro de patentes foi algo que também chamou a atenção durante o encontro.

No IFSC, destaque para um artigo recentemente publicado sobre fototerapia dinâmica e o patenteamento de um dispositivo capaz de fazer a detecção de pessoas infectadas por Malária, Leishmaniose e Doença de Chagas.

UFPI-1Já no Piauí, José Roberto e sua equipe têm trabalhado com a prospecção de moléculas e substâncias bioativas, identificadas na biodiversidade do Nordeste. "Identificamos uma substância nos alcaloides do Jaborandi que possui grande atividade contra o S. Mansoni [causador da esquistossomose]", conta.

Ele também cita outros estudos de seu Grupo de Pesquisa, como o desenvolvimento de produtos utilizando materiais nanoestruturados, como nanopartículas "sintetizadas com química verde" com ação antimicrobiana. "Acreditamos que o uso sustentável de nossos recursos naturais como, por exemplo, em biotecnologia e nanotecnologia, fornece condições para o desenvolvimento de uma região, pois existe maior valorização da cadeia produtiva, muitas vezes explorada apenas na extração primária", afirma o docente.

Em um ano, a Rede se reunirá, novamente, e mais novidades são aguardadas. Mas, Zucolotto adianta: as discussões em 2013 girarão em torno de pesquisas em neurociências e no uso de células-tronco. A parceria, nesse caso, será com o Centro de Neurociências da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). "Temos avançado bastante nos estudos direcionados à nanotoxidade relacionada a neurônios, também. Outra parceria da Rede para esses estudos é com o Instituto Pelé Pequeno Príncipe*, que tem uma linha de pesquisa voltada ao tratamento de câncer infantil".

O intercâmbio de informações entre as diversas Universidades que participam da Rede de Nanobiotecnologia é constante, embora os encontros presenciais não sejam tão assíduos. Alguns alunos da UFPI, por exemplo, já trabalham no laboratório de Zucolotto e estudantes do IFSC, em um futuro muito breve, também estarão alocados temporariamente em outras universidades parceiras.

Sobre a Rede

A Rede de Nanobiotecnologia, inserida no programa da CAPES, Nanobiotec Brasil, foi lançada em 2009 e é coordenada pelos docentes do IFSC, Valtencir Zucolotto e Yvonne Primerano Mascarenhas.

Até o presente momento, cerca de 120 pesquisadores de várias universidades do país fazem parte da Rede, entre docentes, doutores e alunos de pós-graduação.

A Rede de Nanobiotecnologia, em particular, estuda os avanços e benefícios da nanotecnologia aplicada à saúde, e é uma Rede multidisciplinar, que congrega físicos, químicos, engenheiros, biólogos, dentistas, farmacêuticos etc.

Além da Rede de Nanobiotecnologia, que reúne um número mais expressivo de pesquisadores, há outras redes menores, com estudos na área "nano". Zucolotto também coordena a Rede de Nanotoxicologia, da qual fazem parte apenas cinco grupos de pesquisa do país e dois do exterior.

*Instituto de Pesquisa, fundado em 2005, sediado em Curitiba (PR)

FONTE : IFSC